O CEO da Boeing adverte que os biocombustíveis amigos do clima nunca chegarão ao preço do combustível de jato

6min
Opinião
02 junho, 2023
Opinião de Milton Steagall

Confira o ponto de vista de Milton Steagall sobre a entrevista do Financial Times com o CEO da Boeing sobre biocombustíveis e preços no mercado internacional.

Link original da matéria:  https://www.ft.com/content/42099d27-3095-4e10-ba94-a3d33f9ff35a

Resumo da matéria:

O CEO da Boeing adverte que os biocombustíveis amigos do clima nunca chegarão ao preço do combustível de jato

O chefe da Boeing alertou que os novos biocombustíveis amigos do clima “nunca alcançarão o preço do combustível de jato”, jogando água fria em um pilar central da estratégia do setor de aviação para reduzir as emissões.

Ponto de vista de Milton Steagall, CEO do Grupo BBF:

Uma Nova Era para os Biocombustíveis: A Solução do Grupo BBF (Brasil BioFuels)

Em resposta à recente notícia publicada pelo Financial Times, na qual o CEO da Boeing, Dave Calhoun, questiona a viabilidade dos combustíveis sustentáveis de aviação (SAFs) alcançarem a paridade de preços com os combustíveis tradicionais, gostaria de trazer uma perspectiva diferente e inspiradora. No Grupo BBF (Brasil BioFuels), acreditamos no potencial da produção sustentável de SAFs e estamos prontos para enfrentar o desafio da descarbonização da aviação. Os dados apresentados na notícia são claros: os SAFs ainda representam menos de 1% do consumo global de aviação e são negociados a preços consideravelmente mais altos. Ainda assim, é importante olhar para além desses números e entender o imenso potencial e os benefícios ambientais que os biocombustíveis trazem. A descarbonização é um desafio que vai além da questão de custos. É uma necessidade urgente para combater a mudança climática, proteger nosso planeta e garantir um futuro sustentável para as próximas gerações.

O Grupo BBF está se destacando nesta área, com inovação e pioneirismo. Trabalhamos com a produção de óleo de palma sustentável na Amazônia, especificamente em áreas já degradadas e que não são utilizadas para plantação de alimentos. Deste modo, conseguimos produzir um SAF mais competitivo e sustentável. O óleo de palma, em particular, não requer pré-tratamento, consome menos hidrogênio e pode, portanto, ser produzido a um custo mais baixo. A disponibilidade de óleo vegetal para a transição é de fato uma questão importante. As matérias-primas utilizadas atualmente para a produção de SAFs, como os resíduos alimentares, serão rapidamente esgotadas à medida que a demanda pelo combustível aumentar. No entanto, a produção de óleo de palma oferece uma solução sustentável para este problema. O Brasil é único em termos de biodiversidade e condições climáticas, e é por isso que tem um papel tão importante a desempenhar nesta transição. Com uma área cultivável de 66,3 milhões de hectares (FAO, 2022) e um clima favorável para o, o Brasil tem o potencial para fornecer a quantidade de óleo vegetal importante para a descarbonização do setor de aviação.

Além disso, os dados da Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO, 2022) indicam que a demanda por combustível de aviação pode chegar a 1,8 bilhões de toneladas até 2040. A produção de SAF a partir do óleo de palma poderia, portanto, desempenhar um papel significativo em atender a essa demanda crescente, ao mesmo tempo em que contribui para a redução de emissões. É verdade que ainda estamos no começo de uma longa jornada e que existem desafios significativos a serem superados. No entanto, a Brasil BioFuels está comprometida com a missão de oferecer soluções sustentáveis e competitivas para o setor de aviação. Acreditamos no potencial dos SAFs e estamos confiantes de que, com a combinação certa de políticas, inovação e cooperação, podemos superar os obstáculos e fazer uma contribuição significativa para um futuro mais verde e sustentável.

Compreendendo a importância dos dados para fundamentar argumentos, é relevante destacar que, de acordo com o próprio Financial Times, o preço do combustível de aviação sustentável nos EUA fechou a $6,83 por galão, enquanto o combustível de jato custava $2,34. Isto, sem dúvida, representa um desafio. No entanto, é essencial salientar que as tendências econômicas e tecnológicas estão mudando rapidamente. As inovações e os avanços na produção de biocombustíveis têm o potencial para reduzir significativamente esses custos. A administração Biden, por exemplo, propôs um “grande desafio” à indústria para produzir 3 bilhões de galões por ano de SAF até 2030, um aumento expressivo em relação aos atuais 16 milhões. O apoio e a assistência do governo, como os créditos fiscais do Ato de Redução da Inflação, podem ajudar a indústria a superar os obstáculos ao investimento no curto-prazo, porém tem data de validade.

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) também estabeleceu uma meta ambiciosa para alcançar emissões líquidas zero até 2050, com os SAFs representando 65% da redução. Esta meta implica um aumento substancial na demanda por SAFs, e o Brasil está idealmente posicionado para atender a essa demanda. Com uma área disponível e previamente degradada de 31 milhões de hectares e uma produção de óleo de palma sustentável crescente, o Brasil tem o potencial para produzir grandes quantidades de SAF de forma sustentável. De acordo com um estudo da Universidade de São Paulo (USP, 2022), uma plantação bem gerida de palma pode render até 6 toneladas de óleo por hectare por ano. Isso significa que, teoricamente, se todo o terreno cultivável fosse usado, o Brasil poderia produzir mais de 186 milhões de toneladas de óleo de palma por ano. Claro que este é um cenário hipotético, mas demonstra claramente o potencial extraordinário do Brasil para a produção de SAF. Estes dados, quando combinados com a tecnologia e a inovação, como a ferramenta de modelagem “Cascade” da Boeing, que auxilia na avaliação de métodos de descarbonização, reforçam a nossa visão inspiradora de um futuro em que os SAFs desempenham um papel central na aviação sustentável. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas a jornada já começou, e nós do Grupo BBF, estamos orgulhosos de fazer parte dela.

*Milton Steagall é CEO do Grupo BBF.